As garantias não se somam, se multiplicam.
A Conexão Psicológica é uma empresa de tecnologia e não presta atendimento psicológico. Esta página é material técnico e não substitui a leitura das normas do Conselho Federal de Psicologia nem orientação profissional sobre um caso concreto; a plataforma citada no texto é produto da própria casa.
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A Conexão Psicológica publicou oito textos sobre inteligência artificial em ato clínico. Cada um defende um ponto, e cada um foi escrito para ser lido sozinho. Esta página existe para dizer o que nenhum deles diz sozinho: a ordem em que esses pontos se relacionam, e por que a ordem é a parte que decide.
A tese é uma só. A Resolução CFP 09/2024 não regula a ferramenta, regula quem responde por ela. Por isso avaliar inteligência artificial clínica não é julgar a qualidade do modelo, é percorrer uma cadeia de custódia da decisão clínica: a que destilamos destas oito publicações tem sete pontos de checagem. E as garantias não se somam, se multiplicam: passar em seis dos sete não deixa a ferramenta quase segura, porque cadeia não tem nota média, ela rompe no elo mais fraco, e as seis verificações bem-sucedidas produzem a aparência de rigor que faz ninguém procurar a sétima.
O que a Resolução CFP 09/2024 mudou para quem atende
O que a Resolução CFP 09/2024 diz sobre usar inteligência artificial no atendimento?
A Resolução CFP 09/2024 não menciona inteligência artificial em nenhum de seus artigos: ela regulamenta o exercício da psicologia mediado por tecnologias digitais de informação e comunicação, e é por essa porta que o uso de inteligência artificial entra. O deslocamento que isso produz é o ponto: a norma não lista tecnologias permitidas nem proibidas, ela atribui a quem exerce a profissão o dever de avaliar a viabilidade e a adequação da tecnologia ao serviço prestado, e por isso a pergunta operacional deixa de ser "esta ferramenta é autorizada?" e passa a ser "eu consigo responder por tudo o que ela fez?". A resolução, de 18 de julho de 2024, entrou em vigor 30 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União e revogou as Resoluções CFP 11/2018 e 04/2020. A orientação específica do Conselho Federal de Psicologia sobre inteligência artificial veio depois, em guia próprio de dezembro de 2025, que tem natureza orientativa e não substitui a resolução.
O deslocamento parece pequeno e reorganiza a prática inteira. Uma norma que listasse tecnologias autorizadas produziria uma tarefa de conferência: procurar o nome da ferramenta na lista, encontrar, seguir. Uma norma que atribui o dever de avaliar produz uma tarefa de verificação, e verificação não termina, porque a ferramenta muda de versão e o dever continua exatamente onde estava. É daí que nasce a necessidade de uma régua própria: sem lista para conferir, quem atende precisa de um método.
O que a inteligência artificial apoia, e onde começa o ato profissional
O que a inteligência artificial pode fazer no prontuário psicológico, e o que não pode?
Uma ferramenta de inteligência artificial pode apoiar o registro, transcrevendo, organizando e sistematizando o que já foi dito, e esse apoio não é, por si, exercício da psicologia. Ele também não é livre: o Conselho Federal de Psicologia orienta que gravar e transcrever material de atendimento exige consentimento informado da pessoa atendida e plataforma cujas condições de privacidade e armazenamento sejam conhecidas por quem atende, e desaconselha inserir prontuário, nome e outros itens identificáveis em ferramentas de uso geral. A linha do ato profissional se cruza quando a ferramenta formula a hipótese, decide a conduta ou produz o documento que será lido como avaliação psicológica. O critério prático que separa os dois casos não é a sofisticação do modelo: é a assinatura, ou seja, quem responde pelo que está escrito.
A confusão que essa pergunta carrega quase sempre vem de supor que a linha está na potência da ferramenta. Não está: uma ferramenta simples que produz o documento assinado como avaliação já cruzou a linha, e uma sofisticada que organiza material bruto para leitura humana não cruzou.
Repare que a permissão e o dever andam juntos, e é aí que a maioria das leituras rápidas se perde: o apoio ao registro não é ato privativo e mesmo assim não é livre, porque sigilo e consentimento não dependem de a operação ser privativa. A série desenvolve a fronteira em onde termina o apoio operacional e começa o ato privativo.
A cadeia de custódia da decisão clínica: sete pontos de checagem
O termo custódia vem emprestado de outro ofício, de propósito. Numa cadeia de custódia, o que importa não é a qualidade de cada elo isolado, é a integridade do percurso: basta um ponto sem registro para que o percurso inteiro deixe de ser demonstrável, por melhores que sejam os outros.
Os sete pontos abaixo estão na ordem em que falham, não na ordem em que foram publicados. Cada um responde uma pergunta, previne um modo de falha específico, e está desenvolvido em uma publicação própria.
Uma ausência que vale explicar antes que alguém a note: sigilo, consentimento e armazenamento do dado não aparecem como um oitavo ponto. Não é esquecimento, é posição: eles não dependem de a ferramenta passar em nada, valem antes, durante e depois de toda a lista, e por isso estão na seção anterior, junto do dever que acompanha o apoio ao registro. Quem preferir tratá-los como elo próprio não estará errado, e a régua não muda.
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Transparência
O que essa ferramenta faz, com que dado, e o que ela não me conta?
Previne adotar sem saber o que se assina. Desenvolvido em as perguntas de transparência a fazer antes de adotar.
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Proxy e viés
O que o sistema foi otimizado para prever, e isso é o que importa clinicamente?
Previne otimizar uma coisa e ler o resultado como se fosse outra. Desenvolvido em como o viés entra pela escolha do que se mede.
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Calibração
O número de confiança bate com a taxa real de acerto?
Previne decidir com uma régua quebrada. Desenvolvido em por que confiança declarada e acerto real são coisas diferentes.
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Override
Dá para desfazer, e o desfazer fica registrado?
Previne que o apoio vire fato consumado. Desenvolvido em o botão de reversão e o registro de quem reverteu.
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Escopo
Isso é apoio operacional ou ato privativo?
Previne delegar o que a norma reserva a uma pessoa. Desenvolvido em onde termina o apoio operacional e começa o ato privativo.
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Supervisão
Onde exatamente entra o julgamento humano no fluxo?
Previne o human-in-the-loop de fachada, que existe no organograma e não no ato. Desenvolvido em o modelo human-in-the-loop e o que ele exige na prática.
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Responsabilidade
Quem responde quando der errado?
Previne terceirizar o dever que não se transfere. Desenvolvido em por que o dever ético de quem assina é intransferível.
Falta uma publicação nessa conta, e a falta é deliberada. O monitoramento longitudinal entre sessões não é um oitavo elo: é a cadeia inteira aplicada a um recurso concreto, com adesão opcional e decisão clínica humana, e está descrito em a cadeia aplicada a um recurso real. As sete são régua; ela é exemplo, e misturar as duas naturezas quebraria a régua.
Escolher um instrumento é o mesmo problema do proxy, visto antes do algoritmo: ele também mede uma coisa e costuma ser lido como se medisse outra. A pergunta que protege não depende de haver algoritmo envolvido: qual foi o critério de inclusão deste instrumento neste catálogo, e ele está declarado em algum lugar onde eu possa conferir? É uma régua que vale contra qualquer catálogo, inclusive o de quem publica esta página.
Por que as garantias se multiplicam em vez de somar
Como saber se uma ferramenta de inteligência artificial clínica é confiável?
Confiabilidade em ferramenta clínica não é uma propriedade única, é uma cadeia de sete verificações distintas: transparência, escolha do que o sistema foi otimizado para prever, calibração da confiança declarada, reversibilidade, escopo do ato, ponto de entrada da supervisão humana e responsabilidade nomeada. O que torna a avaliação difícil é que uma cadeia não tem nota média: ela rompe no elo mais fraco, e o elo mais fraco tende a ser justamente o que ninguém verificou. O risco prático, e é ele que faz a falha ficar invisível, é que as verificações bem-sucedidas produzam uma sensação de rigor que faz a busca parar cedo demais, e por isso a pergunta útil não é "esta ferramenta é boa?", é "qual dos sete pontos eu ainda não verifiquei?".
Vale imaginar o caso trabalhado, porque ele é bem mais comum que o desastre óbvio. Uma ferramenta é transparente, não tem viés conhecido, tem reversão com registro, está dentro do escopo e tem supervisão declarada com responsável nomeado. Seis pontos verificados, todos de verdade.
E ela está descalibrada. Anuncia noventa por cento de confiança onde acerta sessenta. Nada na interface avisa, porque calibração não aparece na interface: ela aparece na comparação entre o número declarado e a taxa observada ao longo do tempo, que é um trabalho que quase ninguém faz. As seis verificações que passaram não protegem contra essa falha, elas a escondem, porque produzem a confiança institucional que faz ninguém procurar a sétima. Seis de sete não é uma nota, é um mapa com uma região em branco, e a região em branco é exatamente onde ninguém está olhando.
Limite declarado e desempenho medido: a distinção que o mercado apaga
Qual a diferença entre um limite declarado e um número de acurácia?
Um limite declarado é uma decisão de projeto sobre quanto se permite à máquina; um número de acurácia é uma medição de quanto ela acerta. A distinção é antiga e não nasceu na psicologia: uma viga é dimensionada para uma carga de projeto e não é descrita pela carga média que aguentou nos ensaios, e um fusível tem corrente nominal, não taxa de acerto. Na Conexão Psicológica, que é quem publica esta página, o limite declarado é um teto de 70% de confiança da inteligência artificial: a ferramenta não afirma confiança acima disso em nenhuma hipótese clínica, e a revisão de quem atende é obrigatória em todas elas, não apenas nas que se aproximam do teto. A pergunta que a distinção devolve serve contra qualquer fornecedor, inclusive contra quem escreveu isto: qual é o seu limite declarado, e onde ele está publicado?
Uma ferramenta muito precisa e sem limite algum sobre o que faz com a própria precisão é mais arriscada que uma menos precisa com o limite escrito, porque acurácia alta é justamente o argumento que dispensa a supervisão. O mercado apaga a distinção porque a medição vende e o limite não: número de acerto é promessa, e limite é confissão de fronteira.
E um limite só é conferível se estiver publicado junto com a definição do que ele limita. É essa a diferença entre um limite e um número decorativo, e é por isso que o teto de 70% da casa está publicado com a definição do que limita: o valor de confiança que a ferramenta pode exibir para uma hipótese clínica.
O que perguntar antes de adotar
A cadeia vira ação quando alguém a transforma em perguntas feitas antes da assinatura do contrato, e não depois do primeiro incidente. O primeiro elo já existe escrito, em as perguntas de transparência a fazer antes de adotar: o que a ferramenta faz, com que dado foi treinada, o que ela não conta, com que frequência muda de versão, e o que acontece quando muda.
E aqui vale a ressalva que sustenta a página inteira. Esse questionário é o primeiro ponto de checagem, não a checagem toda. Uma ferramenta pode responder tudo com transparência exemplar e ainda estar otimizada para prever a coisa errada, descalibrada, sem reversão, ou dentro de um fluxo em que a supervisão humana existe no organograma e não no ato. Transparência é a condição que torna as outras seis verificáveis. Ela não substitui nenhuma delas.
Perguntas frequentes sobre inteligência artificial na psicologia clínica
Inteligência artificial pode fazer diagnóstico psicológico?
Não. O diagnóstico psicológico é função privativa de quem tem formação e registro em psicologia, por força do artigo 13, parágrafo 1º, da Lei 4.119/1962, e uma ferramenta de inteligência artificial não é sujeito de profissão regulamentada: ela não pode ser titular dessa função. O Conselho Federal de Psicologia orienta que a função de diagnóstico, avaliação ou intervenção não seja delegada à tecnologia sem supervisão e controle humano, e que a produção de laudos, pareceres ou diagnósticos com apoio de inteligência artificial não se sustenta sem essa supervisão. Na prática, a ferramenta pode apoiar quem avalia, com revisão integral e autoria assumida, e o que ela produz é insumo, nunca o diagnóstico: a responsabilidade pelo conteúdo do documento é sempre de quem assina.
Quem responde se uma ferramenta de inteligência artificial errar no atendimento?
Quem assina o atendimento responde eticamente pela decisão apoiada por sistema automatizado, e esse dever não se transfere: nem para quem desenvolveu a ferramenta, nem para a instituição que a adotou, porque subordinação administrativa não equivale a subordinação técnica. Isso não extingue as responsabilidades próprias de quem fornece e de quem contrata, que correm em outras esferas; o que não se transfere é o dever ético de quem exerce a profissão. É por isso que reversibilidade e registro deixam de ser conforto de interface e viram condição de trabalho: sem poder desfazer e sem registro de quem desfez, não há como demonstrar onde o julgamento humano entrou. A consequência prática é que a decisão de adotar uma ferramenta é, ela própria, um ato profissional.
O que significa dizer que um número de confiança está calibrado?
Um número de confiança está calibrado quando ele corresponde à frequência real de acerto: se uma ferramenta declara noventa por cento de confiança, ela precisa acertar perto de noventa em cada cem afirmações desse tipo. Quando a taxa real fica abaixo da declarada, o número não descreve o mundo, apenas decora a interface, e quem decide apoiado nele decide com uma régua quebrada. E a intuição de que ferramenta melhor vem melhor calibrada é falsa: arquiteturas mais recentes e mais potentes tendem a ser pior calibradas que as de uma década antes, o que significa que potência e honestidade do número anunciado não andam juntas por padrão.
Como o viés entra em uma ferramenta de saúde mental?
O viés entra pela escolha do que o sistema é treinado para prever, e não pela qualidade técnica de como ele prevê. O caso mais estudado vem do sistema de saúde geral dos Estados Unidos, e não da saúde mental: um algoritmo largamente adotado foi otimizado para prever custo de atendimento em vez de doença, e a proporção de pessoas negras identificadas para cuidado adicional subia de 17,7% para 46,5% quando o alvo era corrigido. O mecanismo é estrutural e não depende do domínio, então ele vale igual em saúde mental: sempre que a variável treinada apenas se correlaciona com o que importa clinicamente, o sistema aprende junto as desigualdades de acesso embutidas nessa correlação. A pergunta a fazer sobre qualquer ferramenta clínica não é se ela é justa, é o que exatamente ela foi otimizada para prever.
Leituras: a série completa
As oito publicações, na ordem da cadeia. Cada uma se sustenta sozinha, e juntas são o método inteiro.
- Transparência algorítmica em ferramentas clínicas: o que perguntar antes de adotarAdotar sem perguntar é assinar pela máquina.
- Viés algorítmico em saúde mental: o caso Obermeyer e o que ele ensinaO algoritmo aprende o que você mede, não o que importa.
- Calibração de confiança em IA clínica: por que 70% não é número arbitrárioConfiança que não bate com o acerto engana.
- Override absoluto: por que toda inteligência artificial clínica precisa de um botão de reversãoSe não dá para desfazer, não é apoio.
- O que não se delega: a fronteira entre apoio operacional da IA e o ato privativo do psicólogoA ferramenta apoia. A pessoa responde.
- IA ética na psicologia: o modelo human-in-the-loopOnde o julgamento humano entra no fluxo, e o que isso exige do desenho.
- Responsabilidade ética intransferível: o que o CFP já definiu sobre inteligência artificial na prática clínica psicológicaResponsabilidade clínica não terceiriza para algoritmo.
- Pulso-AI: monitoramento longitudinal entre sessõesA cadeia inteira aplicada a um recurso real, com adesão opcional e decisão clínica humana.
O catálogo de 45 instrumentos da Conexão Psicológica, 40 deles com validação brasileira, declara o critério de inclusão de cada um. E esta é a plataforma da Conexão Psicológica, onde estas decisões de projeto foram tomadas. Esta página é revisada quando a norma ou a série mudam, e a data da última revisão está no topo.